Ciclo de Amor

Há uns tempos a jornalista Laurinda Alves, no seu blog, publicou o seguinte texto:
«O MAIOR PRESENTE DA VIDA? Poder ter os meus pais a morar comigo naquele que é seguramente o último ciclo da vida deles, e podermos todos fazer esta escolha com liberdade e sem aflições. Ou seja, sem ser em estado de emergência, estando eles ainda com saúde e muita autonomia. Não concebo maior dádiva do que esta, e sei que muitos filhos gostariam de poder fazer o mesmo com os seus pais em vez de os visitarem à pressa na vertigem dos dias ou, pior, de os irem ver ao hospital ou a um lar de onde é impossível não sairmos sempre meio desolados. Confesso que o testemunho que os meus próprios pais deram, quando trouxeram os meus avós para nossa casa, me marcou para o resto da vida. A minha querida-adorada avó Laurinda morreu na sua cama, no seu quarto, em nossa casa, rodeada por toda a família alargada e numerosa. Não consigo imaginar uma morte mais tranquila. Deus queira que este nosso ciclo familiar ainda seja longo e feliz, mas há muitos anos que sonhava com isto. Comove-me a realização deste sonho e se há pais que merecem este suplemento de alegria e ternura, são pais como os meus. E há muitos como eles, felizmente. Amanhã, depois e depois estamos em mudanças. Muito cansativo, mas muito bom.»

Estas palavras tocaram-me bem fundo na alma.

Também eu me lembro de, em criança, presenciar o tratamento e cuidado dado aos idosos da família. A memória mais antiga vai para a minha bisavó Mariana. Lembro-me de olhar com um grande respeito e admiração aquela que era então a matriarca da família, sentava-me junto dela e ouvia as suas histórias de vida sem nunca me cansar. Viveu os seus últimos dias juntos dos seus filhos sempre rodeada de muito amor e carinho com todo o respeito que lhe era devido. Rodeada de amor deu o último suspiro na sua cama. Foi também assim com quase todos os meus avós e bisavós, a excepção para a minha avó materna que contra sua vontade faleceu no hospital longe da sua cama e da sua casa.


(desconheço a origem desta imagem  bem como o seu autor, se alguém souber agradeço que me diga para poder colocar os respectivos créditos)
Aqui pela horta, o nosso projecto de vida teve sempre em atenção os nossos pais ( agora apenas os meus, visto que os meus sogros já faleceram). Quando construímos a nossa casa reservámos uma parte de casa para os meus pais, um quarto com casa de banho e uma sala com "kitchenette".  Casas separadas, porque a privacidade de cada um é importante.
Por agora os meus pais continuam a ter a sua casa e a ir e vir sempre que lhe apetece. Inicialmente estavam mais tempo lá do que cá, agora passam cada vez mais tempo connosco. Começam a sentir esta também como a sua casa e a sentir-se mais acompanhados agora que o "crepúsculo dos deuses" se começa a adivinhar. Por outro lado têm o enorme privilégio de acompanhar o crescimento dos netos e sentem-se muito felizes com isso. Para as crianças têm sido também tempos especiais estes de comunhão com os avós. Para mim tem sido reconfortante senti-los por perto  e saber que todos estão felizes, avós e netos.

Estará ainda longe a necessidade de cuidados dos meus pais, assim o espero, mas quando for necessário cá estarei para cuidar deles tal como eles um dia cuidaram de mim.
É o fechar de um ciclo de amor.