Blogagem Colectiva as Fases da Vida: Infância

"Em vez de primatas, estamos a comportar-nos como se fôssemos insectos sociais (abelhas ou formigas), como adultos-obreiros que assim que têm os filhos, os metem em grandes infantários, aos cuidados de adultos-amas, que não têm qualquer ligação familiar com as crianças e as criam a todas da mesma maneira." AnaGF

Desde há uns dias que esta ideia tem vindo a ecoar na minha cabeça.
Senti-me a pior das mamíferas quando aos 5 meses de vida da minha filha a "abandonei" ao cuidado de terceiros (felizmente eram os avós) e fui trabalhar.  Era suposto eu protejer o meu bebé com todas as minhas forças e ao contrário eu deleguei esse cuidado noutras pessoas, sem questionar.

Quando aos 2 anos e meio ela foi para a creche, tudo me pareceu natural, afinal quase toda a gente que eu conhecia colocava as crianças na creche. Só quando tudo o que havia para correr mal na creche aconteceu, questionei o que andava eu a fazer aos meus filhos.  Tomámos decisões, ela sairia da escola, ele não iria mais para casa dos avós e eu ficaria em casa com eles. Ficou também decidido que até à primária nenhum deles iria para a escolinha e ficariam comigo em casa.
Só aqui me apercebi da forma tão estranha como estamos a afastar as crianças do nosso dia-a-dia. Qualquer que seja o local público em que nos movimentemos nos dias úteis, não há crianças. Procurei-as para brincarem com os meus filhos e não as encontrei, para além de sermos olhados com estranheza pela maioria das pessoas que quando as veêm comigo na rua, nas horas que deveriam estar em escolas, têm uma necessidade imensa de perguntar onde fica a escola deles, como se estarem com a mãe fosse a coisa mais estranha do mundo e não o contrário.
Temos o mundo dos adultos e o mundo das crianças, cruzam-se ao final do dia e de manhã cedo antes de cada um ir à sua vida. O que se passa? Porque tornámos estes mundos tão estanques? Porque razão não podem coexistir? Como diria uma amiga minha, o que estamos a fazer com as crianças estamos a fazer com os velhos, afastá-los da nossa sociedade, metidos em instituições. Mas isso é outra conversa e será para uma próxima fase da vida.
Não é isto que queremos para os nossos filhos, serem criados por "amas" que mal os conhecem e que não estão ligadas a nós por nenhum laço, nem o da amizade.  Por isso quando descobrimos que o Ensino Doméstico é legal em Portugal resolvemos que essa vai ser a nossa escolha. Para o ano inscreveremos a L. no primeiro ano na escola da área da nossa residência mas na modalidade de Ensino Doméstico. Quer dizer que não teremos escola nem professor para apontar o dedo, seremos nós os responsáveis pela educação dos nossos filhos.

Se tudo correr como previsto os nossos filhos passarão a sua infância em família, comigo,com o pai e os avós e já agora com os amigos, porque afinal o número de pais que tem vindo a optar por esta via de ensino tem crescido nos últimos tempos e aqui pela zona são já umas quantas famílias a praticar ensino doméstico.


"Contudo, vivemos mesquinhamente, quais formigas, ainda que a fábula nos relate que há muito tempo atrás fomos transformados em homens;"
in "Walden ou vida nos bosques", Henry David Thoreau

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