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15 março 2011

O Nascimento - Uma Blogagem Colectiva Sobre as Fases da Vida

Ontem, quando a Rute me deixou uma mensagem a lembrar da Blogagem Colectiva Sobre as Fases da Vida para hoje, fiquei em stress tinha-me esquecido. Com as crianças por perto verbalizei isso mesmo, "esqueci-me". Prontamente os meus filhos quiseram saber do que se tratava, ficaram tão empolgados com a temática, que me salvaram do esquecimento, querendo de imediato vizualizar um filme sobre o nascimento. Entre os vários que temos cá por casa escolheram a "Vida no ventre: Mamíferos". Ali ficámos a ver o documentário os três enroscadinhos no sofá. Enquanto olhava aquelas mamíferas a parir, inevitavelmente a minha mente voou até aos partos dos meus filhos, afinal, nós, mamíferas, na hora do parto não somos assim tão diferentes umas das outras.

Revivi as ondas que ciclicamente me envolviam num misto de prazer e dor. Cada uma a mostrar-me que estava mais próxima a hora de conhecer o ser que me habitava o ventre. Lembrei-me da ladainha que cantarolava baixinho durante a onda e que me dava força para a vencer:

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.(1)
(1)Excerto do poema Mar Português de Fernando Pessoa

Venci o Admastor da dor e passei o Bojador com a ajuda de todas as minhas avós que estiveram sempre presentes em espírito. Eu que sou a prova viva da sabedoria dos seus corpos  ao longo de milénios, nunca duvidei por um segundo que fosse da minha capacidade inata de parir. Se elas conseguiram eu também iria conseguir. Consegui e recebi o maior prémio de todos, o meu tão desejado bebé. 
Os meus filhos nasceram em casa, na nossa cama, com toda a calma e traquilidade do mundo.
O parto foi para mim uma experiência magnífica e transcendental que superou todas as minhas expectativas. Com eles renasci como mulher e como pessoa.

A L. e o A. sempre souberam como nascem os bebés, nunca lhes menti e sempre lhes respondi com a verdade às suas perguntas e eles sempre acharam natural a nossa forma de nascer. Depois do filme a L. sentou-se a desenhar. Decidiu desenhar o ciclo do nascimento de cinco mamíferos, o elefante, o golfinho, o cão, o cavalo e o homem. Este foi o seu entendimento da formação e nascimento dos vários mamíferos:
À história antes de dormir foi "nasce um bebé... naturalmente" da parteira mexicana Naolí Vinaver. Ambos ouviram atentamente e no final a L. tinha os olhos rasos de lágrimas de emoção, ela e eu que continuo a chorar e a emocionar-me com o parto.  
Já eles dormiam e eu continuava a deambular pelo assunto. Lembrei-me então de um  magnífico poema que li na antologia organizada pelo pediatra Mário Cordeiro, A Poesia do Nascer. O poema de Mónica Cernich é para mim a melhor descrição do trabalho de parto que já li até hoje, descrevendo na perfeição tudo aquilo que sinto:

Nascimento

Eterno momento etéreo,
Nunca tão doce a dor.
Morro num segundo
para deixar nascer uma nova identidade em mim...
Não a criança que nasce,
sou eu, mãe, que num fragmento de segundo,
num arrancar desgarrado,
num silêncio eterno que dura o tempo do pó...
um choro me pare, me dá vida
e, pela primeira vez,
me transformo para sempre,
sem nunca mais me lembrar quem era antes.

Pó de canela e baunilha doce,
deixa nos meus braços
o aroma da minha nuvem de algodão:
Menino que vens do mundo mágico,
onde as nossas almas dançaram à beira-mar
e em cada onda construíram
um castelo de sol e sal,
eternamente fugaz
solidamente livre.

Ensinaste-me num fragmento de mundo
a entregar-me a essa sintonia de fios de prata
que une para sempre um olhar humilde e incrédulo de pai
quando o tempo pára...
E o tempo só pára quando,
num único e vital empurrão,
fico vazia por dentro
e plena por fora...
Nascimento, doce dor,
Será que quem nasce é o filho?
Será que quem nasce é a mãe?

Obrigada querida Rute por me teres organizado esta blogagem colectiva e me teres lembrado ainda a tempo de participar, permitindo-me revisitar, mais uma vez, estas minhas memórias que são das mais importantes da minha vida.

33 comentários:

  1. Também me emocionei a ler este post... Recordo com saudade o nascimento dos meus filhos, ter um ser tão pequenino nos braços... no nascimento do primeiro levei toda a noite acordada a olhar para ele. É a melhor emoção que já experimentei, inexplicável...

    Adorei os desenhos da L. o teu blogue continua a ser, para mim, muito inspirador.

    Um grande beijinho :)

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  2. Gaspas: comprei o livro no 1º Congresso Internacional pela Humanização do Nascimento organizado pela Humpar em 2006, no qual estava presente a parteira Naoli Vinaver.

    Amora: Obrigada pelas tuas palavras. Também não dormi ;-) Para mim também foi a melhor emoção/sensação que experimentei até hoje :-D

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  3. Parabéns! És uma mulher de coragem.

    Meu filho nasceu na maternidade e penso que nunca conseguiria tê-lo em casa devido às dificuldades do parto.
    Mas acho louvável as mulheres que o fazem, minha mãe teve três filhos em casa só a mais nova é que nasceu na maternidade.

    Adorei o post.:)

    Beijinhos da Formiguinha

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  4. Luísa!
    Muitos beijinhos, muitos parabéns pelo post lindo e a todas as mães e pais e filhos!!! Realmente este tema proposto pela Rute é um Mundo...
    Gostei muito da interpretação da L. e o poema também é o máximo.
    Obrigada também pelo teu comentário no meu post.
    Temos que nos encontrar!
    Muitos beijinhos para todos
    Isabel

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  5. Querida Luísa,
    Gostei tanto do teu post. Também me emocionei e muito. E que privilégio teres tido os teus filhos em casa. Um dia vou querer ouvir a história dos seus nascimentos.
    Obrigada também por teres passado no meu blogue.
    Um grande beijinho
    Lara

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  6. Olá Luísa, muito lindo seu post, belíssima participação!
    Bjuss!!!

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  7. É sempre uma emoção lembrarmo nos do nascimento dos nossos filhos, tenham sido boas ou má experiencias!!!As mulheres são um poder da Natureza e é nos dado esta dádiva única de poder pôr uma vida no Mundo!!!O Amor que se cria é inabalável e cresce mesmo sem se ver o que temos dentro de nós..São uma companhia desde que são feitos até que nascem e depois disso tornam se amigos, confidentes mas acima de tudo são nossos para sempre....
    Bonito post Luisa, como sabes gosto muito do teu blog e da tua visão de vida e partilha mos muitas coisas.Esta é mais uma....

    Bjokas
    Rita

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  8. O nascimento de um filho é um momento de magia e não tenho dúvidas que nós mães também nascemos nesse momento. A dor faz-nos antever algo maravilhoso e inexplicável, a minha única dor foi ter a Sara longe de mim 14 dias, acho que nenhuma mãe está preparada para isto e devíamos estar.

    Beijinhos

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  9. Luisa,que maravilhosa sua participação!Mesmo tendo esquecido,foi demais ficar vendo filmes com as crianças,lendo livros sobre o assunto e o desenho de sua filha está um mimo!Lindos pensamentos e poesia!Bjs,

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  10. Formiguinha: Felizmente existem os hospitais para quando alguma coisa corre menos bem :-D
    Então também nasceste em casa?

    Isabel: Temos mesmo! Caramba tenho muitas saudades tuas e das nossas conversas :-D

    Lara: E eu conto Lara, eu conto :-D

    Rachel: Obrigada e parabéns :-D


    Ana Rita: É verdade Ritinha temos muita coisa em comum :-D

    Rachel: Imagino a tua dor! 14 dias? Caramba isso é muito tempo. Felizmente ambas superaram a situação.

    Anne Lieri: Obrigada pelas tuas palavras Anne :-D

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  11. Também fiquei emocionada e cada vez ganho mais coragem de, quando pensar em ter outro filho, parir em casa.
    Um grande beijinho e obrigada por seres uma fonte de inspiração fantástica. :)

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  12. Luisa,o teu sentimento passou para cá, tocou-me e emocionou-me.
    Tive minha filha de cesariana (tinha mesmo de ser), mas queria muito ter tido um parto natural.
    Nos dias de hoje, decidir ter filhos em casa, é não deixar que a sociedade influencie o que nós queremos, por isso - Parabéns e obrigada pela partilha.
    Nascer e morrer devia de ser em casa.
    Um beijinho.

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  13. Luísa,
    Bem fez a Rute em te lembrar da coletiva! Assim, tivemos a oportunidade tão emocionante relato, com a companhia dos filhos. Até desenhos saíram, que lindos!
    E a emoção da L. também me chamou a atenção. Uma gracinha já se sensibilizar pela vida.
    Sabe que ontem já tinha lido algumas partipações de Portugal e fiquei tão envolvida com tudo que li, que não conseguia dormir, tal como você que continuou sentindo as boas energias desses momentos revividos.
    Tenha um dia feliz!

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  14. Valha-te Deus, és mulher de coragem.

    Não conseguiria, teria morrido, tendo em conta as complicações dos dois partos, Diogo parto normal com 4,190kg, deveria ter sido cesariana, mas que remédio, não havia tempo para isso.
    Dani, com 4kg, resolveu que havia de ficar atravessada e pronto, lá fui eu para cesariana.

    Apesar do sofrimento preferi o parto normal, no entanto, os dois deixaram boas recordações, nunca esquecemos o nosso primeiro encontro com nossos filhos e é o melhor do mundo.

    Choro de cada vez que me recordo, sempre que alguma coisa faz-me lembrar do momento em que fui mãe, as lágrimas são inevitáveis.

    Sou tão lamechas, aff!! Não há paciência :)

    Beijinhos.

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  15. Olá, Luísa querida
    Meu desejo de hoje é que uma chuva de bênçãos seja derramada sobre VC e outra chuva de pétalas de rosas orvalhadas...

    Que gracinha de post, meu Deus!!!
    Que partilha enriquecedora!!!
    Falar do nascimento junto aos pimpolhos... que curtição legal!!!
    Menina, que sorte vc teve de ter seus filhinhos em casa... que naturalidade!!!
    Comigo não foi assim, foram parto de alto risco e, infelizmente, traumatizante...
    Mas, o fato de ser mãe, não me intimidou... amo ser mãe!!!
    Gostei do post tão bem elaborado... minucioso... completo...
    Parabéns pelos filhos lindos e participantes na construção do seu lar...
    Deus os abençoe!!!

    Carinhos fraternos em forma de orvalho sôbre pétalas de rosas...

    Uma santa e abençoada Quaresma para VC.
    Bjs natalícios

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  16. Parabéns por sua participação!Assim vamos interagindo através dessa coletiva,o qual tb participo,
    Boas energias,paz,saúde,e muito amor
    Bjs
    Mari

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  17. Na família de minha avó materna, dos mais de 60 netos, apenas uns 20% ou menos nasceram na maternidade. e o mais interessante é que, vovó fez todos os partos. Ela era parteira das boas.

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  18. Certamente que nasce a mãe, como um novo ser, totalmente diferente do anterior !
    Após ser mãe, nunca mais conseguimos nos desapegar do fruto do nosso ventre, mesmo estando ele há quilometros de distância.

    Mãe é aquela que renasce das cinzas, se preciso for.

    Beijo

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  19. Luísa,

    Que post interessante. Que coragem.
    Parabéns!
    Gostei muito do poema.
    Beijos

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  20. Olá Luísa,

    Estou a 15 semanas do parto, a cada dia que passa vou relembrando tudo o que passei no 1º... sinto um misto de medo com ansiedade que chegue rápido...porque sem dúvida é o momento de mais pura felicidade que podemos experimentar... Lembro-me de chorar de tanta alegria e não conseguir parar de dizer " a minha filha"..."a minha filha"... A minha adora filha... adora a história do nascimento dela...trocamos muitas vezes os livros...pelo dia do nascimento dela... Agora vou reviver tudo outra vez... Mas confesso que estou cheia de medo!!!

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  21. Fogo!
    Começo a crer que tenho o toque de midas! Não que transforme tudo em ouro, no sentido material, mas estes desafios apesar de darem uma tremenda trabalheira a organizar e cuidar, são por demais gratificantes, surpreendentes, viciantes!
    E tu, tens o toque da criação.
    Num relato aparentemente diário transformaste o texto em sonho, senti-me una com todos os mamiferos, voltei a ser criança, a desenhar fetos nas barrigas, ouvi a tua história como se estivesse aconchegada na cama, vi as almas dançantes antes de reencarnarem, senti-me plena por dentro e por fora.
    Extraordinariamente MÁGICA a tua participação.
    Não te vou largar a saia nas vesperas das próximas fases!
    Um grande agradecimento de coração,
    Rute

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  22. O nascimento dos nossos filhos fica na nossa memória para sempre!

    Um beijinho grande!

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  23. Bigada ;)

    Confesso que parto em casa também era o meu sonho, mas o meu marido não alinhava nisso :P Por receio de complicações...

    Então lá fomos para a MAC às 3h da matina...

    Com 9 dedos estavam a perguntar-me se eu queria epidural... e eu indecisa... aquilo nem me estava a doer muito :P Mas o bebé estava subido e eu tive receio de ser "torturada"... e pedi a epidural... mas não deu tempo... prolapso de cordão... cesariana de urgencia com anestesia geral.... Snifff... perdi o melhor da festa!!

    Mas conseguiram acordar-me para eu ver a carinha do meu filhote durante 5 segundos meio embaciado e depois apaguei de novo...

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  24. Luísa, emocionei-me ao ler este teu post! Estou tão perto de fazer um ano que fui mãe e quase todos os dias recordo o nascimento do M. Também foi em casa e foi maravilhoso! É maravilhoso ser mulher, ser mãe! Sou feliz todos os dias desde esse momento mágico. Obrigada por me fazeres reviver e aprender e inspirar com a maravilhosa mulher que és!Havemos de nos conhecer pessoalmente! Beijinho

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  25. Luisa, nome bonito! Fui atraída pelo seu nome. Sempre gostei do meu nome, mesmo fora de moda. Agora ele virou um "must", novamente. Já viu que enxurrada de Luizas, Marias Luizas? Vc também é linda, blog lindo, pois nele há vida, há encanto na sua horta.E aqueles desenhos me emocionaram prá caramba! Parabéns pelo post, tão lindo, tão doce! Minha lista agora terá uma horta encantada e completa pois tenho já um jardim da Lucinha que é quase Luiza. Bejos!

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  26. Nós aqui em casa também sempre respondemos e mostramos de forma esclarecedora o nascimento deles...Linda história..carinhos

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  27. Luisa
    Desculpe o atraso, mas estou lendo os posts da Blogagem Coletiva, um pouquinho por dia.
    Ah! achei super legal o seu com filme e crianças envolvidas. E os desenhos então? Uma graça, parabéns.
    um beijo

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  28. Uma bela história para a blogagem coletiva que vc fez triplamente.Muito bom.Seguirei e voltarei com mais tempo.Bjkssssss

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  29. É muito gratificante presenciar uma mãe instruindo tão bem os filhos! Gostei também de vê-los dispostos a contribuir para a blogagem, isto quer dizer que além do tema, apreciam o seu blogue. Parabéns!

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  30. Olá Luísa,

    Emocionante o momento do nascimento de um filho. O parto foi feito no Hospital de Faro, mas poderia ser em casa que era o meu sonho!
    O JP tem 10 anos e infelizmente agora só com PMA :(. Um dia escrevo sobre isso... beijinhos grandes

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  31. Tenho esse livro. É lindo!
    Parabéns pelo blogue!

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  32. Levei imenso tempo a arranjar coragem para comentar este post.
    A maternidade é o meu calcanhar de Aquiles.
    Como diz a minha ginecologista, a mente tem tal poder que no meu caso até funciona como anticonceptivo! lolol
    Tenho um tal pavor a partos que ler este post deixou-me completamente arrepiada, agoniada e com o coração a mil!
    Tenho um enorme respeito por todas as mulheres que optam por um parto natural e mais ainda por aquelas que arriscam a ter os seus filhos no conforto dos seus lares.
    E tens toda a razão, se as nossas avós o fizeram ... era óptimo reiniciar a minha memória ou compreender a origem da minha fobia... enquanto isto não acontece, dou-me por feliz por ir encontrando Mulheres como tu.

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